Eu, tu, ele.

Não me interpretes mal nesse amor que sinto pelo mundo
Nessa minha promiscuidade com a gente e as ruas e a vida fora nós.
Essa vida que existe para premiar o nosso encontro
Esse encontro que não deixa interstícios
Esse encontro que reorganiza o mundo ao nosso modo
- Que a vida fora nós é a mesma para mim e para você
Nunca mais os desencontros de sentidos
Nunca mais a solidão dos desencontros
Nunca mais o coração circunspecto e o olhar perdido.

Como não desejar ser sempre assim?
Se puder o mundo nunca mais me botar medo
Se puder o mundo nunca mais te botar medo
Então apenas o medo de não ser sempre assim
De a vida cair no chão e ir por terra

Como deter eu o movimento da tua natureza?
Como tudo, tu tens o teu lugar no mundo.
E és tão mais bela porque cresces
Porque aprendes e porque mudas
Porque te encantas e te admiras
E então sorris

E como não desejar então
Que fossem meus todos os teus sorrisos ?
E todas as tuas lágrimas e todas as tuas dúvidas
E todas as tuas escolhas e todas as tuas etapas

- Que o movimento do mundo nunca te afaste de mim
Que a Terra gire com mais cautela só por nós
Que a cidade dirija com menos pressa só porque
Eu já não posso mais com tanto risco
Eu já não posso mais com tanto acaso

Ocorre que só sei amar assim
Computando sempre o risco
E te amando mais por ele
E te querendo mais por ele
Porque sem ele somos só nós sem o mundo
E sem o mundo não temos o que temer
E sem temer não há razão para o nosso encontro
- Mundo seguro que nunca nos faria medo.
Que nunca nos daria sede
Que não nos faria jamais querer buscar a cura
Que não nos aproximaria da loucura
- Mundo exato e pequeno
No qual nem caberíamos

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Poema do desencontro

Então era aquela a sutil armadilha:

Programar encontros futuros
Sem a ajuda dos relógios reais
Despedir-nos sem nenhuma paisagem porvir
Sem nenhuma estação de trem amparada
Pelos ponteiros das horas mecânicas
- que racionam o esforço humano
Que roubam do tempo sua propriedade amorfa
-sem a qual nos encontraríamos
No mesmo lugar que nos deixamos

Mas não nos encontramos
Mas não nos encontramos

Lançamos balões aos céus
E enterramos cartas de amor em campos de guerra
- Nesses campos onde tudo se move e todos se perdem
Em meio a tanques e metralhadoras
Em meio a soldados planejados
Como encontros burocráticos

Esses soldados, meu amor
foram destroçados como sustos

As indústrias e os quartéis
Planejam o desencontro
Mas nem sabem
E quem é que faz a hora
Que por vezes desatina
a máquina da vida

E a desfaz
E a faz girar ao revés
Lançando ao mar
Mesmo os aviões da paz?

Quem será esse artesão secreto
Que esconde na diferença entre o dia e a noite
E nos relógios de areia
A mesma fagulha que esforça os ponteiros
Dos relógios mais precisos ?

A areia que escorre na nossa ampulheta
É um pedaço do mundo que roubamos
E ele parece tão grande quanto todo o resto que ficou
E então eu te pergunto:
qual é o máximo do mundo que podemos ter
Com quem negociar
Que leis seguir ou criar
Quais os relógios que agenciarão os nossos encontros daqui pra frente?

Como devemos nos despedir meu amor?
Escolher entre o adeus e o até logo:
- É aqui que pesam todas as horas.

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Poema zero

Entre o cálculo perfeito
e a concretude áspera
do cimento e dos tijolos

a nossa completa ignorância
de que a qualquer momento
esse mundo pode desabar sobre nós

e seus limites de asfalto e céu de cal
planejados pela ciência do homem
sempre aquém do movimento

das placas que sob o magma colidem
sem pulsão, sem função, por acaso
por descaso por tudo que há

de sustentado por essa ilusão
falível mas suficiente
que sustenta os prédios

que aterra os mares
que domestica átomos
que esvazia os cemitérios

conferindo à paisagem
a mudança enganadora
que movimenta a engrenagem

das engenharias e das linguagens
as verdadeiras armas que limitam
o vazio com as paredes tangíveis

que nos protegem de escorrermos
pelos sonhos mais do que pela morte
- que só ficam intactas as arestas do mundo.

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O cão e o lobo

Entre o lobo massacrado
e o cão disciplinado
o que haverá?
Para onde tende?
O que se entende
desse louco enquadrado?

Não sou cão
Alheio a própria dor
Não sou cão
Que elege ditador
O ser livre me escolheu
Lembrando o lobo que sou
Mas tampouco lobo sou
só porque digo

Antes digo só e apenas
porque não esqueço
Que outrora fui e que hoje sou
Lobo agonizante
Mirando adiante
Cão que quando sendo
Não consegue ser
Posto que não pode esquecer
Que detrás do silencio obediente
Ladra insistente
o coração de um louco.

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Palavra (en)cantada

Filme: Palavra (en)cantada

Direção: Helena Soldberg

Ano: 2008

Mais uma vez, a cineasta Helena Soldberg mostra seu interesse pela cultura popular brasileira. Nesse novo documentário, Palavra (en)cantada, trata de um tema que vem ganhando atenção, principalmente, de estudiosos dos campos da literatura, da música e da antropologia: nada menos do que as relações entre a poesia e a música.

Tema rico, complexo e com um horizonte tão largo que é capaz de colocar dentro dele quase toda a história da humanidade, senão toda ela. Porque falar das ligações entre música e poesia talvez tenha mais a ver com a linguagem primitiva dos primeiros homens do que com a racionalização e burocratização que nela o Ocidente Moderno instituiu. E que, por sua vez, levou à separação, através de um binário mecanismo cartesiano, entre as linguagens escrita (que se passou a associar a dimensão racional do homem) e musical (associada a uma dimensão mais emocional).

No entanto, alguns estudiosos empenharam-se em demonstrar que `nossa dicotomia contemporânea entre texto e música não pertence a uma ordem natural permanente`. E que durante a Idade Média, por exemplo, a figura dos trovadores, entoando suas cantigas acompanhados por instrumentos musicais, encarnava esse casamento entre a palavra e a música. O mesmo acontecia na sociedade grega antiga, nos rituais religiosos de tribos africanas, nas canções heróicas iugoslavas e, da mesma forma, em muitas outras expressões culturais. (ver Palavra Cantada: ensaios sobre poesia, música e voz)

Assim, Palavra (en)cantada, parte da hipótese, tornada explícita por uma das falas do músico e pesquisador José Miguel Wisnik, de que a música popular brasileira seria expressão autêntica de mais um desses encontros históricos entre a música e a poesia.

Hipótese perfeitamente costurada e que se inicia com um depoimento de Adriana Calcanhotto cantando em franco-provençal versos de Artaud Daniel, poeta provençal do século XII. Seguindo essa tessitura, há a sugestão de Lenine de que os compositores brasileiros são descendentes diretos do trovador e os depoimentos de Wisnik, discorrendo sobre a forte tradição oral da cultura brasileira. Segundo o pensador, a cultura letrada nunca teria penetrado ampla e efetivamente no Brasil e teríamos passado diretamente da oralidade para a cultura audiovisual do rádio e da televisão, sem o interlúdio determinante do livro e da escrita, tal como acontecera na Europa.

Dessa hipótese é que surgem, alinhavados, outros questionamentos. Refiro-me, em especial, ao antigo debate relacionado à existência ou não de fronteiras entre a cultura popular e a cultura erudita no Brasil. Aqui aparece, mais uma vez, o interesse da cineasta pelo Tropicalismo (o que já revelara explicitamente em seu documentário anterior sobre Carmen Miranda, Bananas is my buisness), como manifestação cultural em que essa aproximação entre elite e massa, erudito e popular é perpetrada. São valiosas as imagens de arquivo mostrando figuras como Caetano Veloso (numa hilária entrevista no Festival da Record, em 1967), Gilberto Gil, Rita Lee, entre outros, que protagonizaram esse momento histórico.

O ecletismo que orienta a escolha de seus personagens deixa muito claro essa postura tropicalista adotada pela cineasta. Afinal de contas, entre os entrevistados (Adriana Calcanhotto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, BNegão, Chico Buarque, Ferréz, Jorge Mautner, José Celso Martinez Correa, José Miguel Wisnik, Lirinha, Lenine, Luiz Tatit, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Tom Zé e Zélia Duncan,) estão sambistas, poetas, intérpretes, rappers, teatrólogos, baianos, gaúchos, cariocas, moradores da zona sul, leste e oeste. Mais variado, parece difícil.

Somos levados à sugestão de que, desse encontro entre a música e a poesia, as fronteiras- sociais, culturais- no que tem de limitadoras, tornam-se, de alguma maneira, menos demarcadas. E é isso que realmente importa para o filme. Não a discussão levada à frente por muitos sobre o quanto uma letra de música pode ou deve ser considerada poesia. Ganha peso o depoimento de Adriana Calcanhotto de que essa é para ela uma discussão infértil, a vida é muito curta para comportar esse tipo de preocupação.

Até porque, justamente, o que está em jogo aqui não é demarcar fronteiras nem colocar cada coisa no seu devido lugar mas, ao contrário, mostrar que misturadas, remidiadas, transmidiadas, elas sao igualmente belas, ou diferentemente belas, que seja. O que vale aqui é Fernando Pessoa chegando para Adriana pela voz de Bethania, é Waly Salomão chegando para gente depois de passar pela sensibilidade de Adriana, é João Cabral chegando para milhares de pessoas pela música de Chico Buarque. É a antropofagia de Zé Celso Martinez, o Tropicalismo de Caetano, a palavra, seja ela escrita por Cícero, recitada por Lirinha ou cantada por Bethânia.

Um argumento forte que o filme usa é o relato, feito por Chico Buarque, da história que há por trás do musical feito por ele a partir do famoso texto de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Conhecido como um poeta racionalista, avesso às rimas e a musicalidade dos poemas, contam os músicos, as músicas ( como Outro Retrato, de Caetano Veloso) e o depoimento de Chico, que João Cabral não gostava nem um pouco da idéia de que musicassem seus poemas.

No entanto, sabemos que assim foi feito, que Morte e Vida foi musicado por Chico para a montagem de uma peça e, em grande parte por isso, tornou-se conhecido por tanta gente. Então a pergunta que fica é: se até Cabral foi musicado o que nessa vida não é musicável? Se no auge da pretensão da racionalidade se pode extrair uma música, essas duas instâncias não são tão independentes assim como um dia o Ocidente ou Cabral desejou.

E é esse debate sobre a oposição entre erudito e popular, palavra e música, que ganha corpo a partir da hipótese que o filme lança. Oposição que perde parte de seu sentido no reconhecimento de que somos uma cultura preponderantemente oral, de que fazemos parte de uma sociedade (a brasileira) em que a divisão entre a razão e a emoção não foi de todo efetuada. De que num mundo de bom dias burocráticos, a nossa canção é uma forma de viver mais poética e musicalmente o dia-dia.

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Inteiro

Sou um ser sem fronteira
Sem borda, sem beira.

Pelos sentidos recebo o mundo
De uma forma tal que o confundo
Com aquilo que meu corpo encerra

E então me pergunto:
Como dividir-me do mundo?

Como absorver o sol
e não sentir que ele me integra?
Que seu amarelo me alegra
Que seu calor me esquenta
O sangue, o sexo, as idéias.

Como dividir-me do mundo?
Se quando eu adoeço
Tudo em volta adoece
E a morte de um simples homem
Um pouco mais para sempre me anoitece

Como dividir-me do mundo?
Se quando te amo sinto
Que se não fosse assim
Parte de mim seria
A parte que falta
Para eu saber de mim

Meu corpo não encerra nada
É fronteira ilusória.
Como parte do mundo
Sou também o mundo inteiro.
Sem começo ou paradeiro.

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4 estações

Quando eu te vi notei Londres na sua pele.
Quando te ouvi escutei Porto Alegre no seu som.
(o som e a cor distantes dos filmes em preto e branco).

Logo percebi então que os solos pelos quais você andara não havia no mapa da minha vida. E para mim que a vida é uma questão de explorar para tornar o conhecido uma parte do meu continente sem fim. rapidamente fiz de você o geógrafo capaz de desenhar os contornos dos terrenos virgens, o astrônomo capaz de me dizer onde estou e quem eu sou embaixo de cada estrela.

E do nosso encontro fizemos o mundo. Com você chegando de trem com suas malas abarrotadas de castelos escoceses e solidão londrina, povoando a minha pequena província com os sotaques do seu mundo velho, estreitado pelo crescimento humano, asfaltando a minha natureza vulnerável com o seu cimento sólido.

Para logo o mundo tornar-se as nossas primaveras trocadas, as três horas que distanciavam a nossa percepção de tempo a partir do meridiano no qual todo os dias você tinha os pés enfiados, os aeroportos lotados cuspindo homens de negócios para todas as latidudes.

Para que logo o nosso intervalo fosse resumido a você perdido no tempo com o seu relógio atrasado, bem ali na minha frente, na minha hora, na minha primavera. para que logo fosse possível espremer ainda mais essa distância, que não é mais de tempo e espaço, que é embaraço. no encontro do meu português cantado para me fazer clara com o seu atropelado por todas as suas horas antes de mim. pelos nossos desencontros rítmicos ansiosos de um maestro ou de um silêncio para nos harmonizar.

Até nos tornarmos esse ponto minúsculo onde o mundo fora nós permanece satisfeito com a mais ordinária das suas representações.

(...)

Bem sabíamos que apenas seríamos possíveis em meio a fusos horários e vôos marcados que colocassem para fora da gente a nossa distância tão justamente representada pelo oceano e o continente dos mapas.

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