Coração de estrada

Com o coração abarrotado e as mãos vazias
eu voltava:
- sem mala, sem nome, deserta de mim.

Eu já era ponte
eu já era estrada
fronteira a ser cruzada sem porquê
porto a ser chegado por todos.

A tristeza que eu sentia não era minha
- eu chorava em outros olhos
- eu sorria em outros lábios.

Guerreiros, homens-bomba, ditadores
todos se refugiaram em mim
todos moraram em mim
eu hospedei todos em meu país sem nome.

Eu identifiquei em mim todos os pecadores
e dei a eles o perdão como se eu o tivesse
mas quem é que precisa do meu perdão, ó Deus?!
e quem é que precisa do Teu?

Deixa dar aos homens um destino de homem
deixa-me dar a mim um destino de homem
destrói em mim o significado do amor
amesquinha em mim o significado da vida
enche a minha boca de palavras pequenas
porque só assim poderei viver.

Ensina-me a falar de novo, mãe
tira de mim esse amor pelas palavras absolutas
destrói em mim esse vício grandiloquente
torna-me pagã
exila de mim esse Deus exigente
exila de mim os criminosos
não cabe a mim amá-los
não cabe a ti amá-los.

Deixa-me eu também me tornar uma criminosa
deixa-me chorar com os meus olhos
pelos meus pecados
pela minha vida ridícula
não te contaram que a minha vida também é ridícula?
que em meu íntimo eu guardo ambições mesquinhas?
que em meu íntimo eu rio de todos os poetas?

Livra-me do teu amor de Deus
eu não quero, eu não quero!
você não é maior que ninguém, ó deus
nem você, nem as mães, nem os poetas
eu vou morrer com as doenças do mundo
eu vou morrer com a fome do mundo

Livra-me de qualquer amor que seja grande
de qualquer amor que seja incondicional
entrega-me um amor honesto apenas

Arranca de mim esse coração de estrada!

2 comments:

flowerKing January 28, 2010 at 6:06 PM  

Querida amiga! Já dei um feedback pra esse, hein, hauehuhea! Lindo! Lindo! Você sabe que esse é um daqueles que me toca profundamente!

Beijos!

Anonymous,  February 4, 2010 at 7:56 AM  

Ficou maravilhoso! Seu escrito contém o infinito, abarca de forma simplestemente viva o Todo indissociável humano.
Amei.
Não pare de escrever nunca.. mocinha.

Beijos,
kamilla.

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