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Rumo a Av. Rio Branco

É, baby, faz tempo né, do tempo em que dizíamos um ao outro que não havia no mundo nada como o nosso amor, do tempo em que comparávamos a grandeza do amor à das coisas astrais...
Lembra que sonhávamos que éramos os revolucionários do século, que lutávamos em 68, que destruíamos com nossas metralhadoras a fome do mundo, lembra?
Faz tempo, baby, hoje o meu amor passa pela porta, senta-se à mesa, deita-se de meias no final do dia. Faz tempo. Mas ele ainda acorda, faz o café, deixa a casa para trazer o pão.
Não é que tomamos rumos...que deixamos pra trás os caminhos que desenhamos com as palavras enquanto o mundo lá fora ia parar em manchetes de jornais estendidas nas bancas?
Olha pra você, ficou linda metida nessas roupas, sustentando essas novas idéias. E mantém tão bem esse mundo ao seu redor, nem parece a menina que se enfiava embaixo dos lençóis, que se escondia no último vagão do metrô.
Volta e meia eu me pego pensando em você, comparando esse amor que toma o ônibus todos os dias, que chega pela madrugada nas pontas dos pés para não fazer barulho, com todas aquelas promessas, com todos aqueles sonhos que o abrir das janelas despedaça. E eu nunca chego a lugar nenhum.
Eu sigo tomando o ônibus pela manhã, virando as páginas de calendários que mostram grandes pintores ou estrelas de cinema, eu sigo operando a máquina e trocando os lençóis em terríveis manhãs de domingo. E volta e meia sonho com revoluções, batendo a cabeça no vidro da janela às segundas-feiras pela manhã, rumo à av. Rio Branco.

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Fugaz

Creio ter tomado das palavras esse hábito de escapar-me
De fugir-me a todo instante

Às vezes desconfio de que como uma maldição
Cravaram em mim sua natureza escorregadia
E assim acabei me tornando esse pau pra toda obra
- essa que carrega pedras, que arma barraca na feira,
que escreve para os jornais e no final do dia demite-se de si

Sinto-me a cada dia destinada a viver uma vida diferente
Não sei que sina é essa de ser sem ter vida própria
De ter vida, apenas

Sou descontínua como um sonho, uma piada, um minotauro
Começo absurda e termino banal
Começo animal e termino gente
- nem mesmo num mesmo espaço sei ser homogênia

Todos os dias olho para o espelho e estranhada de mim
coloco a culpa no tempo
O que sinto é que viver evapora-me.
Alucinada procuro uma consistência, uma certeza
Mas até minhas verdades são feitas de palavras e nada mais
Não sei erguer prédios a partir delas

Fugaz, passo na boca dos outros como um “bom dia”
Às vezes passo em suas mãos
Mas muitas vezes nem me tocam
Sou como um perfume vagabundo
-fácil e atraente e sobretudo sem fixidez

Ao contrário dos outros sou de despedidas
Apenas dou-me inteira porque carrego no meu princípio
o desejo da partida
Não sei amar ninguém pela metade e muito menos aos poucos
Sou de deitar-me com estranhos
(Mas é que eles não me parecem assim)
Identifico-me antes de ver as diferenças

Espero que o tempo me perdoe por ser essa traidora
Por nunca ter aprendido a respeitar suas leis
Por nunca ter conseguido controlar essa ânsia
E hoje até gostar dela
Mas como diabos se faz para se ser fiel a uma natureza traidora?
- Eis onde as palavras não dão conta.

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Coração de estrada

Com o coração abarrotado e as mãos vazias
eu voltava:
- sem mala, sem nome, deserta de mim.

Eu já era ponte
eu já era estrada
fronteira a ser cruzada sem porquê
porto a ser chegado por todos.

A tristeza que eu sentia não era minha
- eu chorava em outros olhos
- eu sorria em outros lábios.

Guerreiros, homens-bomba, ditadores
todos se refugiaram em mim
todos moraram em mim
eu hospedei todos em meu país sem nome.

Eu identifiquei em mim todos os pecadores
e dei a eles o perdão como se eu o tivesse
mas quem é que precisa do meu perdão, ó Deus?!
e quem é que precisa do Teu?

Deixa dar aos homens um destino de homem
deixa-me dar a mim um destino de homem
destrói em mim o significado do amor
amesquinha em mim o significado da vida
enche a minha boca de palavras pequenas
porque só assim poderei viver.

Ensina-me a falar de novo, mãe
tira de mim esse amor pelas palavras absolutas
destrói em mim esse vício grandiloquente
torna-me pagã
exila de mim esse Deus exigente
exila de mim os criminosos
não cabe a mim amá-los
não cabe a ti amá-los.

Deixa-me eu também me tornar uma criminosa
deixa-me chorar com os meus olhos
pelos meus pecados
pela minha vida ridícula
não te contaram que a minha vida também é ridícula?
que em meu íntimo eu guardo ambições mesquinhas?
que em meu íntimo eu rio de todos os poetas?

Livra-me do teu amor de Deus
eu não quero, eu não quero!
você não é maior que ninguém, ó deus
nem você, nem as mães, nem os poetas
eu vou morrer com as doenças do mundo
eu vou morrer com a fome do mundo

Livra-me de qualquer amor que seja grande
de qualquer amor que seja incondicional
entrega-me um amor honesto apenas

Arranca de mim esse coração de estrada!

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Eu, tu, ele.

Não me interpretes mal nesse amor que sinto pelo mundo
Nessa minha promiscuidade com a gente e as ruas e a vida fora nós.
Essa vida que existe para premiar o nosso encontro
Esse encontro que não deixa interstícios
Esse encontro que reorganiza o mundo ao nosso modo
- Que a vida fora nós é a mesma para mim e para você
Nunca mais os desencontros de sentidos
Nunca mais a solidão dos desencontros
Nunca mais o coração circunspecto e o olhar perdido.

Como não desejar ser sempre assim?
Se puder o mundo nunca mais me botar medo
Se puder o mundo nunca mais te botar medo
Então apenas o medo de não ser sempre assim
De a vida cair no chão e ir por terra

Como deter eu o movimento da tua natureza?
Como tudo, tu tens o teu lugar no mundo.
E és tão mais bela porque cresces
Porque aprendes e porque mudas
Porque te encantas e te admiras
E então sorris

E como não desejar então
Que fossem meus todos os teus sorrisos ?
E todas as tuas lágrimas e todas as tuas dúvidas
E todas as tuas escolhas e todas as tuas etapas

- Que o movimento do mundo nunca te afaste de mim
Que a Terra gire com mais cautela só por nós
Que a cidade dirija com menos pressa só porque
Eu já não posso mais com tanto risco
Eu já não posso mais com tanto acaso

Ocorre que só sei amar assim
Computando sempre o risco
E te amando mais por ele
E te querendo mais por ele
Porque sem ele somos só nós sem o mundo
E sem o mundo não temos o que temer
E sem temer não há razão para o nosso encontro
- Mundo seguro que nunca nos faria medo.
Que nunca nos daria sede
Que não nos faria jamais querer buscar a cura
Que não nos aproximaria da loucura
- Mundo exato e pequeno
No qual nem caberíamos

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Poema do desencontro

Então era aquela a sutil armadilha:

Programar encontros futuros
sem a ajuda dos relógios reais
despedir-nos sem nenhuma paisagem porvir
sem nenhuma estação de trem amparada
pelos ponteiros das horas exatas
que medem o esforço humano
que roubam do tempo sua propriedade aérea
sem a qual nos encontraríamos
no mesmo lugar que nos deixamos.

Mas não nos encontramos
mas não nos encontramos

Lançamos balões aos céus
e enterramos cartas de amor em campos de guerra
nesses campos onde tudo se move e todos se perdem

As indústrias e os quartéis
planejam o desencontro
mas nem sabem
e quem é que faz a hora
que por vezes desatina
a máquina da vida
e a desfaz
e faz girar ao revés
lançando ao mar
mesmo os aviões da paz

Quem será esse artesão secreto
que esconde na diferença entre o dia e a noite
e nos relógios de areia
a mesma fagulha que esforça os ponteiros
dos relógios mais precisos

A areia que escorre das nossas mãos
é um pedaço do mundo que roubamos
e ele parece tão grande quanto todo o resto que ficou
e então eu te pergunto:
qual é o máximo do mundo que podemos ter?
com quem negociar
que leis seguir ou criar
quais os relógios que agenciarão os nossos encontros daqui pra frente?

Como devemos nos despedir meu amor?
escolher entre o adeus e o até logo:
- é aqui que pesam todas as horas.

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Poema zero

Entre o cálculo perfeito
e a concretude áspera
do cimento e dos tijolos

a nossa completa ignorância
de que a qualquer momento
esse mundo pode desabar sobre nós

e seus limites de asfalto e céu de cal
planejados pela ciência do homem
sempre aquém do movimento

das placas que sob o magma colidem
sem pulsão, sem função, por acaso
por descaso por tudo que há

de sustentado por essa ilusão
falível mas suficiente
que sustenta os prédios

que aterra os mares
que domestica átomos
que esvazia os cemitérios

conferindo à paisagem
a mudança enganadora
que movimenta a engrenagem

das engenharias e das linguagens
as verdadeiras armas que limitam
o vazio com as paredes tangíveis

que nos protegem de escorrermos
pelos sonhos mais do que pela morte
- que só ficam intactas as arestas do mundo.

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Inteiro

Sou um ser sem fronteira
Sem borda, sem beira.

Pelos sentidos recebo o mundo
De uma forma tal que o confundo
Com aquilo que meu corpo encerra

E então me pergunto:
Como dividir-me do mundo?

Como absorver o sol
e não sentir que ele me integra?
Que seu amarelo me alegra
Que seu calor me esquenta
O sangue, o sexo, as idéias.

Como dividir-me do mundo?
Se quando eu adoeço
Tudo em volta adoece
E a morte de um simples homem
Um pouco mais para sempre me anoitece

Como dividir-me do mundo?
Se quando te amo sinto
Que se não fosse assim
Parte de mim seria
A parte que falta
Para eu saber de mim

Meu corpo não encerra nada
É fronteira ilusória.
Como parte do mundo
Sou também o mundo inteiro.
Sem começo ou paradeiro.

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